"Já caiu?". A pergunta feita por uma criança poucos minutos após o horário combinado para receber a mesada mostra uma mudança na relação das novas gerações com o dinheiro. Se antes o valor chegava em notas dentro da carteira dos pais ou no tradicional cofrinho, hoje muitas crianças recebem a quantia diretamente pelo celular, por meio do Pix.
A transformação vai além da tecnologia. A forma como crianças e adolescentes aprendem sobre dinheiro mudou, já que as primeiras experiências financeiras acontecem cada vez mais em ambientes digitais. Nesse cenário, ensinar conceitos como planejamento, orçamento e consumo consciente se tornou um desafio para famílias e escolas.
O debate ganhou força após o Senado Federal aprovar o Projeto de Lei 2.979/2023, que inclui a educação financeira como tema transversal nos ensinos fundamental e médio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). A proposta ainda precisa passar novamente pela Câmara dos Deputados antes de seguir para sanção presidencial.
Embora o tema já faça parte da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a discussão acompanha uma realidade em que crianças utilizam contas digitais, cartões e ferramentas eletrônicas de pagamento desde cedo.
Pesquisas mostram essa mudança de comportamento. Levantamento da Serasa, divulgado em 2025, aponta que 73% das crianças tiveram acesso ao primeiro cartão ou primeira conta antes dos 15 anos e que 28% já recebem mesada por meios digitais, como Pix ou contas bancárias.
Outro estudo realizado pelo PicPay indica que 60% dos pais utilizam ferramentas digitais para transferir dinheiro aos filhos, enquanto 47% usam Pix e 11% utilizam cartão. O levantamento também mostra que 44% das crianças e adolescentes já possuem uma conta própria para realizar transações financeiras.
Com a facilidade das operações digitais, especialistas destacam a importância de ensinar que o dinheiro representa escolhas, prioridades e consequências. O desafio passou a ser encontrar novas formas de ensinar uma geração acostumada a aprender por meio das telas.
Tecnologia como aliada da educação financeira
Algumas escolas passaram a utilizar recursos digitais, jogos e plataformas interativas para aproximar os estudantes de situações reais. Em vez de competir com celulares e aplicativos, essas ferramentas passaram a ser usadas como instrumentos de aprendizagem.
A plataforma Tangram, criada pelo empreendedor Felipe Baldi, em 2020, é um exemplo dessa mudança. Desenvolvida para escolas públicas e privadas e alinhada à BNCC, a ferramenta utiliza a gamificação para ensinar conceitos financeiros de forma prática.
Durante as atividades, os alunos precisam tomar decisões, comparar preços, administrar recursos e entender que cada escolha gera consequências. A proposta é aproximar o aprendizado de situações que farão parte da vida adulta.
Segundo Baldi, a tecnologia ajuda a despertar o interesse dos estudantes pelo tema.
"Utilizamos a gamificação para despertar o interesse sobre o assunto entre os estudantes. Eles vão respondendo as perguntas e existe um ranking que estimula o engajamento e o trabalho colaborativo", explica.

A plataforma também transforma a matemática em uma ferramenta aplicada ao cotidiano. Os alunos analisam valores, calculam proporções, avaliam custos e benefícios e escolhem alternativas mais vantajosas diante de diferentes cenários.
Desde sua criação, a Tangram já foi utilizada por mais de 10 mil estudantes e 100 escolas em todas as regiões do país. Em 2023, recebeu reconhecimento do Instituto XP como uma das principais soluções digitais de educação financeira do Brasil.
Aprendizado que chega às famílias
Uma das instituições que adotaram a plataforma foi a Escola Municipal George Chalmers, em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Segundo o vice-diretor Bruno Faria Lourenço, a tecnologia ampliou as possibilidades de ensino ao aproximar o conteúdo da realidade dos adolescentes.
De acordo com ele, os resultados ultrapassaram os limites da escola. Alguns estudantes passaram a participar mais das decisões de compra dentro de casa, comparando preços e avaliando quais produtos ofereciam melhor custo-benefício.
Para o planejador financeiro Marlon Glaciano, a educação financeira nas escolas complementa os ensinamentos familiares e prepara os alunos para escolhas mais conscientes.
Um supermercado dentro da escola
Em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a professora Eliana Demarques criou, em 2016, um projeto que transformou a sala de aula em um supermercado. A iniciativa foi desenvolvida na Escola Estadual Helena Guerra e utilizava embalagens recicladas, preços simulados e situações de compra para ensinar matemática e educação financeira.
Os estudantes precisavam comparar valores, calcular descontos, analisar produtos e administrar um orçamento limitado. A atividade evoluiu e deu origem à Biblioteca Interativa da Educação Financeira e Inclusiva (BIEI), plataforma criada pela professora.
Para Eliana, o principal resultado é o desenvolvimento da autonomia dos estudantes.
"As atividades proporcionam uma aprendizagem criativa, significativa e colaborativa, motivando o protagonismo dos estudantes para serem cidadãos mais participativos na sociedade", afirma.

Educação financeira para a vida adulta
Para a subsecretária de Desenvolvimento da Educação Básica da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG), Kellen Senra, o ensino financeiro vai além da organização do dinheiro pessoal.
Segundo ela, os estudantes precisam compreender como o dinheiro circula na sociedade, incluindo temas como consumo, impostos, geração de recursos e planejamento.
Em Minas Gerais, o assunto já integra o currículo da rede estadual. Desde 2025, a disciplina Finanças, Economia e Trabalho passou a fazer parte da formação dos alunos do 3º ano do ensino médio.
A mudança na relação das crianças e adolescentes com o dinheiro mostra que o desafio da educação é preparar os estudantes para um cenário em que o valor financeiro aparece cada vez menos em notas e moedas e mais nas telas. Nesse contexto, conhecimento, senso crítico e capacidade de decisão tornam-se ferramentas essenciais para escolhas conscientes.