Garrafas PET, embalagens e outros resíduos plásticos retirados de rios da Amazônia estão ganhando uma nova utilidade em Belém (PA). O material passou a ser transformado em brita ecológica, utilizada na fabricação de componentes para a construção civil, por meio de uma tecnologia desenvolvida pela startup FlexStone em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Pará (UFPA).
A iniciativa está alinhada a um estudo publicado em 2025 na revista científica Ambio, que analisou a poluição plástica na Amazônia e apontou a economia circular como uma das principais estratégias para enfrentar o problema. O processo utiliza resíduos recolhidos pelo projeto Promares.
Segundo o coordenador do projeto no Pará e pesquisador da UFPA, Neyson Mendonça, a tecnologia transforma um passivo ambiental em matéria-prima de alto valor agregado.
De acordo com o pesquisador, a iniciativa cria novas oportunidades de trabalho e renda para cooperativas de reciclagem, promove inclusão social e fortalece uma cadeia produtiva mais sustentável na Amazônia.
O projeto está em funcionamento há pouco mais de oito meses. A expectativa é que, com o avanço das pesquisas, a evolução do marco regulatório e o fortalecimento das parcerias entre universidades, startups, cooperativas, empresas e órgãos públicos, a tecnologia seja incorporada em larga escala pela construção civil.
O CEO da FlexStone, Rodrigo Hühn, destaca que um dos principais diferenciais do processo é a capacidade de aproveitar praticamente qualquer tipo de plástico, sem necessidade de separação por cor ou composição e sem utilização de água durante a produção.
Atualmente, a brita ecológica já é empregada na fabricação de bancos de praça, floreiras e lixeiras instalados em canais revitalizados pela Prefeitura de Belém, como o da Travessa Quintino Bocaiúva. Entre os materiais reaproveitados também estão resíduos plásticos gerados durante a COP30, conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas realizada na capital paraense.
A empresa pretende expandir a tecnologia para outras regiões da Amazônia. Hoje, a linha de produção tem capacidade para processar, em média, cinco toneladas de plástico por mês.
A inovação também resultou na construção de um protótipo de moradia sustentável no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá. Erguida com tijolos produzidos a partir da brita ecológica, a casa incorporou o equivalente a cerca de 300 mil garrafas PET e apresenta maior conforto térmico em comparação às construções convencionais.
Além da UFPA, o projeto Promares reúne pesquisadores de outras 12 universidades brasileiras e da Universidade Técnica de Braunschweig, na Alemanha, responsável pela coordenação da iniciativa. Pará, Maranhão, Bahia e Rio de Janeiro foram escolhidos como áreas-piloto para o desenvolvimento e a validação das soluções.
Para a coordenadora-geral do projeto, Christiane Pereira, o principal diferencial da iniciativa é integrar universidades brasileiras e instituições internacionais na criação de tecnologias adaptadas à realidade amazônica, fortalecendo a economia circular, promovendo a inclusão produtiva de cooperativas, povos indígenas, ribeirinhos e outras comunidades, além de gerar informações para subsidiar políticas públicas de combate à poluição por plásticos.