Uma nova crise migratória atingiu Ceuta, enclave espanhol localizado no norte da África, após quase 60 mil pessoas cruzarem a fronteira com o Marrocos nos últimos dias. A estimativa foi divulgada nesta sexta-feira (31) pelo presidente da cidade espanhola, Juan Vivas, que afirmou que o número representa cerca de 70% da população local.
Diante do aumento expressivo das chegadas, o Exército espanhol foi mobilizado para auxiliar as forças de segurança no controle da região.
Segundo Vivas, 34 pessoas morreram durante a tentativa de entrada em Ceuta. O presidente da cidade classificou o episódio como uma "avalanche" migratória e lamentou as mortes registradas durante a crise.
Durante a movimentação, milhares de migrantes atravessaram a fronteira por terra e pelo mar. Restos de roupas e equipamentos utilizados na travessia foram encontrados próximos à área onde a cerca fronteiriça chega ao litoral.
No Marrocos, milhares de jovens se concentraram durante a noite na cidade de Fnideq (Castillejos), próxima ao território espanhol. Alguns relataram ter ouvido informações de que a fronteira estaria aberta. Até o momento, as autoridades não esclareceram o motivo da onda repentina de migração, formada principalmente por homens jovens e adolescentes.
O episódio relembra a crise de maio de 2021, quando mais de 10 mil pessoas atravessaram a fronteira em apenas dois dias durante uma tensão diplomática entre Marrocos e Espanha.
O primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez deve visitar Ceuta para se reunir com forças de segurança que atuam na fronteira e com autoridades locais. Ele será acompanhado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska.
O governo espanhol anunciou o envio de soldados para auxiliar a Guarda Civil na manutenção da segurança do território. O Ministério do Interior informou ainda que estabeleceu um acordo com o Marrocos para devolver rapidamente ao país as pessoas que entraram ilegalmente em Ceuta.
A crise também gerou repercussões internacionais. A Itália pediu a suspensão da Espanha do Espaço Schengen, alegando discordar da política migratória adotada por Madri. Em resposta, o governo espanhol convocou o embaixador italiano.
A França anunciou que reforçará os controles na fronteira com a Espanha devido ao aumento da pressão migratória.
O episódio ocorre após um período de aproximação diplomática entre Espanha e Argélia. Em 20 de julho, Pedro Sánchez realizou uma visita ao país, a primeira de um chefe de governo espanhol em quatro anos, após um período de tensões.
A crise migratória em Ceuta também está ligada a disputas anteriores envolvendo o Saara Ocidental. Em 2021, o Marrocos flexibilizou controles fronteiriços após uma crise diplomática causada pela decisão da Espanha de receber para tratamento médico o líder da Frente Polisário, movimento apoiado pela Argélia e que defende a independência do território. Em 2022, a tensão foi reduzida após uma mudança de posição de Madri, que passou a apoiar um plano de autonomia proposto pelo Marrocos para a região.
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