A disposição dos brasileiros para participar das eleições mesmo sem a obrigatoriedade do voto atingiu o maior nível da série histórica do Datafolha, iniciada em 1989. Segundo pesquisa divulgada neste domingo (23), 56% dos entrevistados afirmam que votariam nas eleições de 2026 caso o voto fosse facultativo. Outros 43% disseram que não compareceriam às urnas, enquanto 1% não soube responder.
O resultado representa um aumento de 15 pontos percentuais em relação a junho de 2015, quando apenas 41% afirmavam que votariam voluntariamente. Naquele período, marcado pelo processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, foi registrado um dos menores índices da série, ao lado do resultado de 2014.
Para o cientista político Adriano Cerqueira, o crescimento não necessariamente representa uma mudança estrutural na relação dos brasileiros com a democracia, mas pode refletir o atual cenário político. Segundo ele, a mobilização para uma eleição presidencial polarizada tende a aumentar a disposição dos eleitores para comparecer às urnas.
Cerqueira também destaca a força de mobilização dos principais grupos políticos. Segundo sua avaliação, tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) quanto o campo bolsonarista possuem eleitorados engajados, o que pode contribuir para o aumento da participação.
O índice chama atenção porque a abstenção nas eleições presidenciais brasileiras costuma ficar próxima de 20%. No primeiro turno de 2022, 20,95% dos eleitores aptos não compareceram às urnas, o equivalente a quase 33 milhões de pessoas. Em 2018, a taxa havia sido de 20,3%.
Para Cerqueira, não existe necessariamente contradição entre os dados. O voto obrigatório contribui para que uma parcela maior da população compareça às urnas, inclusive pessoas que não participariam espontaneamente de uma eleição.
Além disso, a intenção declarada em uma pesquisa não significa necessariamente comparecimento efetivo. Questões como dificuldades de deslocamento, problemas pessoais e desmobilização no dia da votação também podem influenciar a decisão do eleitor.
A pesquisa aponta diferenças entre os perfis dos entrevistados. Entre os homens, 59% afirmaram que votariam mesmo sem obrigação, contra 53% entre as mulheres.
A disposição também é maior entre os eleitores com 60 anos ou mais, chegando a 61%, enquanto entre os mais jovens o índice é de 48%. Entre pessoas de maior renda, o percentual chega a 75%, contra 49% entre aqueles com renda de até dois salários mínimos.
O cientista político ressalta que a obrigatoriedade do voto reduz parte dessas diferenças ao levar às urnas eleitores que, voluntariamente, poderiam optar por não participar. Ele também lembra que comparecer às urnas não significa necessariamente escolher um candidato, já que o eleitor pode votar em branco ou anular o voto.
No Brasil, o voto é obrigatório para pessoas alfabetizadas entre 18 e 70 anos. A Constituição estabelece voto facultativo para jovens de 16 e 17 anos, pessoas com mais de 70 anos e cidadãos analfabetos.
A obrigatoriedade do voto existe no país desde 1932. Defensores do modelo afirmam que a regra amplia a participação popular e a legitimidade dos eleitos. Já os críticos defendem que votar deveria ser apenas um direito, e não uma obrigação.
O levantamento mostra ainda que 61% dos entrevistados têm interesse médio ou grande por política: 38% classificam o interesse como médio e 23% como grande. Outros 12% afirmam ter pouco interesse.
A pesquisa ouviu 2.058 pessoas com 16 anos ou mais, em 128 municípios brasileiros, entre os dias 18 e 19 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
O levantamento foi encomendado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04496/2026.
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