Segunda, 24 de Agosto de 2026 23:00
(31) 9 9935-7849
Saúde SAÚDE

‘Quem cuida também adoece’: saúde mental dos enfermeiros acende alerta em Minas Gerais

Sobrecarga, jornadas intensas, violência e pressão no ambiente de trabalho levam profissionais da saúde a afastamentos e levantam debate sobre o cuidado com quem está na linha de frente.

31/07/2026 11h49
Por: Redação Fonte: Itatiaia
‘Quem cuida também adoece’: saúde mental dos enfermeiros acende alerta em Minas Gerais

"Eu amo a minha profissão. [...] Desde pequena eu sonhava em cuidar das pessoas. Todas as minhas brincadeiras eram voltadas para isso. Quando terminei o segundo grau, decidi fazer enfermagem. Foi a melhor escolha da minha vida".

É assim que a enfermeira Elisa Mota resume a relação com a carreira escolhida ainda na infância. Aos 54 anos, sendo 27 dedicados à enfermagem e 24 deles na rede da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), ela afirma que nunca se imaginou seguindo outro caminho.

A realidade dos profissionais da área da saúde, porém, revelou um outro lado da profissão: uma rotina marcada por pressão, desgaste emocional e desafios que acabam afetando tanto os trabalhadores quanto o atendimento aos pacientes.

Elisa explica que a enfermagem vai muito além dos procedimentos técnicos.

"A gente acaba sendo um pouco padre, um pouco psicólogo. O paciente confia em nós, desabafa, e muitas vezes a vida dele depende de uma ação nossa. Estamos ao lado dele o tempo todo", afirma.

A enfermeira conta que precisou se afastar do trabalho em algumas ocasiões para cuidar da própria saúde mental, incluindo períodos superiores a um mês.

Um levantamento realizado pela Itatiaia com base nos diários oficiais de Minas Gerais mostra que ela não é um caso isolado. Os dados revelam centenas de afastamentos médicos entre servidores ligados aos serviços de saúde no estado.

No primeiro semestre deste ano, foram registrados 438 afastamentos de servidores da área da saúde por pelo menos um dia devido a questões médicas.

Legenda: Levantamento aponta centenas de afastamentos médicos entre servidores da área da saúde em Minas Gerais.

Do total, 203 servidores estavam lotados na Secretaria de Estado de Saúde, 125 no Hemominas, 57 na Fhemig e 53 no Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (Ipsemg).

Em Belo Horizonte, dados levantados pela reportagem apontam que ao menos 236 servidores se afastaram por motivos de saúde nos seis primeiros meses de 2026.

Dentro desse número, 72 profissionais tiveram licenças de pelo menos 30 dias, 62 ficaram afastados por ao menos 60 dias e 57 tiveram afastamentos superiores a dois meses.

A Secretaria Municipal de Saúde informou que registra, em média, cerca de 200 afastamentos de profissionais por mês. Segundo o órgão, considerando a Rede SUS-BH, formada por aproximadamente 20 mil trabalhadores, o número representa cerca de 1% da força de trabalho.

A pasta afirmou ainda que acompanha os afastamentos e desenvolve ações voltadas ao cuidado dos profissionais, incluindo acolhimento psicológico, acompanhamento sociofuncional e iniciativas de promoção da saúde.

Críticas à rotina de trabalho

A organização do trabalho na área da saúde é alvo de críticas de profissionais e representantes da categoria.

Elisa Mota relata dificuldades em lidar com uma rotina que, segundo ela, passou a priorizar metas e números em vez das necessidades humanas.

"Chegou uma gestão focada em números, números e mais números. As cobranças passaram a ser maiores do que qualquer capacidade humana de cumprir. Não importa se há profissionais suficientes ou recursos disponíveis. As metas continuam sendo exigidas", afirma.

Segundo ela, a redução das equipes aumentou a sobrecarga dos trabalhadores que permaneceram na linha de frente.

"Querem que duas pessoas façam o trabalho que antes era realizado por três ou quatro. Os exames aumentam, o número de pacientes cresce, mas a equipe continua reduzida. Isso gera um ambiente de extrema pressão e hostilidade", relata.

Para a enfermeira, cuidar da saúde mental dos profissionais é fundamental para garantir um atendimento de qualidade.

"Quem está na linha de frente também precisa ser cuidado. Passar nove ou doze horas por dia convivendo com a dor do outro deixa marcas. Sem apoio e sem condições adequadas de trabalho, adoecemos cada vez mais rápido", afirma.

A rotina da enfermagem é marcada por plantões longos, decisões rápidas e contato diário com situações de sofrimento. Nos últimos anos, especialistas alertam para o crescimento de casos de ansiedade, depressão, burnout e outros transtornos entre profissionais da área.

Legenda: Profissionais de enfermagem enfrentam jornadas intensas e desafios emocionais durante o atendimento à população.

Para o psiquiatra e presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, Rodrigo Nicolato, os trabalhadores da saúde estão entre os grupos mais vulneráveis ao sofrimento psíquico.

"Os profissionais de saúde lidam diariamente com sofrimento, morte, decisões rápidas e uma enorme responsabilidade sobre a vida das pessoas. A isso se somam jornadas prolongadas, equipes insuficientes, múltiplos vínculos de trabalho, pressão por produtividade e, muitas vezes, violência no ambiente profissional", explica.

Segundo o especialista, o burnout é resultado do estresse crônico relacionado ao trabalho e pode estar associado a quadros de ansiedade e depressão.

Entre os sinais de alerta estão exaustão constante, insônia, irritabilidade, dificuldade de concentração, perda de interesse pelas atividades e aumento de erros durante o atendimento.

"O profissional precisa entender que procurar ajuda não é sinal de fraqueza. É um ato de responsabilidade consigo mesmo e com os pacientes", destaca Nicolato.

Violência também adoece

Um levantamento do Conselho Regional de Enfermagem de Minas Gerais (Coren-MG) aponta que a violência faz parte da rotina de muitos profissionais.

Os relatos mais frequentes envolvem violência psicológica, assédio moral, ameaças e intimidações. A maioria dos profissionais informou também sofrer com ansiedade, estresse e abalo emocional.

Legenda: Profissionais da saúde relatam casos de violência psicológica, ameaças e pressão dentro do ambiente de trabalho.

O presidente em exercício do Coren-MG, Lucas Tavares, afirma que muitos casos têm como autores os próprios superiores hierárquicos.

Segundo ele, o medo de retaliações ainda impede que muitos trabalhadores denunciem as situações enfrentadas.

Enfermagem: uma profissão 24 horas

Para quem está internado, a equipe de enfermagem costuma ser a presença mais constante durante o tratamento.

São esses profissionais que acompanham a evolução clínica, administram medicamentos, realizam curativos, acolhem pacientes e familiares e permanecem ao lado deles durante todo o período de internação.

Segundo Carolina de Castro Lima, coordenadora de enfermagem do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital João XXIII, essa proximidade faz da enfermagem uma das maiores forças de trabalho dentro de uma unidade hospitalar.

"A enfermagem representa o maior volume de profissionais dentro do ambiente hospitalar e é quem permanece ao lado do paciente 24 horas por dia", afirma.

Ela destaca que, além da assistência técnica, o cuidado humanizado faz parte da rotina das equipes.

"O acolhimento e a humanização são princípios trabalhados diariamente, não apenas pela enfermagem, mas por toda a equipe multiprofissional. Essa é uma premissa do SUS e buscamos evoluir continuamente para oferecer uma assistência cada vez mais humanizada", explica.

Apesar dos desafios enfrentados diariamente, Carolina ressalta que reconhecer o esforço desses profissionais é essencial para ampliar o debate sobre saúde mental e garantir melhores condições de trabalho para quem dedica a vida ao cuidado dos outros.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários